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Nova campanha reúne vídeos, posts para redes sociais, podcasts, cartilha de alfabetização em direitos e site para apoiar famílias e profissionais da educação no debate contra as fake news e a falácia da “ideologia de gênero”. Confira!

A Campanha tem o intuito de conscientizar educadoras, educadores e a sociedade na luta contra a disseminação de informações falsas

Nos últimos anos, especialmente desde 2015, o termo “ideologia de gênero” se tornou frequente em debates, declarações e pronunciamentos. Dos púlpitos das igrejas às bancadas políticas ou em programas de TV, o termo equivocado tem sido usado de forma enganosa para uma referência às identidades de gênero e à inclusão de temas relacionados à orientação sexual e à educação integral para sexualidades nas escolas. Por isso, lançamos a campanha Fato Certo Não Tem Erro com o objetivo de conscientizar famílias, profissionais da educação e a sociedade em geral e dar subsídios teóricos e jurídicos para o debate sobre as identidades de gênero.

Nossa campanha também tem o intuito de conscientizar a mídia sobre o tema e conta com uma cartilha de Alfabetização em Direitos, posts para redes sociais, três filtros de Instagram, sendo um deles um quiz sobre identidades de gênero, stickers para WhatsApp. Além disso, cinco vídeos temáticos abordam as consequências da desinformação e das fake news em temas como transfobia, homofobia, gravidez na adolescência, abuso sexual e infecções sexualmente transmissíveis.

“A campanha tem o intuito de conscientizar educadoras, educadores e a sociedade de modo geral na luta contra a disseminação de informações falsas, inseridas em um contexto amplo de desinformação, tão presentes na sociedade brasileira e que corroboram discursos e práticas que exterminam vidas, ferem identidades e violam direitos humanos”

Raíla Alves, gerente de gênero e empoderamento econômico da Plan International Brasil.

O podcast Fato Certo, com dez episódios, também lança luz sobre fatos e notícias falsas, trazendo, por exemplo, a diferença entre mentira e fake news, e histórias reais de pessoas que foram vítimas de preconceito por causa de notícias falsas. Todos esses materiais estão reunidos em um site especial da campanha: fatocertonaotemerro.com.br.

“A Campanha Fato Certo Não Tem Erro tem o intuito de conscientizar educadoras, educadores e a sociedade de modo geral na luta contra a disseminação de informações falsas, inseridas em um contexto amplo de desinformação, tão presentes na sociedade brasileira e que corroboram discursos e práticas que exterminam vidas, ferem identidades e violam direitos humanos”, afirma Raíla Alves, gerente de gênero e empoderamento econômico.

“A ideia é que a campanha possa ser uma faísca que se soma aos debates de enfrentamento à falácia de ideologia de gênero, enquanto uma das notícias falsas que buscamos enfrentar. Além disso, esperamos que possa servir de instrumento para apoiar educadoras e educadores nesse processo cotidiano de prática libertária contra as notícias falsas e a favor do acesso à informação de qualidade como um direito”, enfatiza.

A cartilha de Alfabetização em Direitos tem um glossário que segue o Guia de Terminologia da UNAIDS e detalha termos e expressões. Um exemplo é o verbete Identidade de Gênero – “Identidade de gênero se refere à experiência interna e individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo tanto o senso pessoal do corpo — que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por meios médicos, cirúrgicos ou outros — quanto outras expressões de gênero, inclusive vestimentas e modo de falar”. Outros termos como cisgênero, heterossexual, homossexual, gay, lésbica, queer, transgênero, etc, também fazem parte da cartilha.

A campanha Fato Certo Não Tem Erro foi criada em parceria com a Angola Comunicação, uma agência formada apenas por mulheres, e está sendo realizada durante os meses de maio e junho.

Campanha Fato Certo Não Tem Erro conta com podcast, vídeos e cartilha de alfabetização em direitos

Diversidade nas escolas: o que pensam educadores e educadoras

Como parte da campanha, realizamos em 11 de maio uma live que reuniu Claudio Neto, diretor da escola Espaço de Bitita/Infante Dom Henrique e pesquisador no Grupo de Estudo de Gênero, Educação e Cultura Sexual (EdGES) da FE-USP; e Gabriela Treteski, psicóloga, sócia de Carlotas e coordenadora do Programa educacional ExploreCarlotas. Raíla Alves foi nossa mediadora. Um dos pontos destacados foi a necessidade de vermos a educação como ferramenta para a promoção de diversidade, garantia de direitos e para o enfrentamento das notícias falsas, que têm impactado negativamente as vidas das pessoas e o Sistema de Garantia de Direitos.

Claudio Neto trouxe um olhar prático sobre a importância de pensar a diversidade a partir do ponto de vista de gestão educacional, com algumas estratégias utilizadas para implementar políticas educacionais voltadas à promoção de diversidade nas escolas. “É importante atuar focalmente, dando atenção às diferenças. Não há como pensar em algo específico ou linear, é preciso reconhecer a pluralidade. Temos um olhar voltado à discussão de gênero com a escola, com meninos e meninas, com professores e professoras, com a equipe técnica. O mesmo vale para as questões raciais, as migrações internacionais – temos muitos bolivianos, paraguaios nas escolas –, o que confere um olhar mais amplo para que não se coadune em desigualdade”, diz Claudio. 

“É importante atuar focalmente, dando atenção às diferenças. Temos um olhar voltado à discussão de gênero com a escola, com meninos e meninas, com professores e professoras, com a equipe técnica. O mesmo vale para as questões raciais, as migrações internacionais”

Claudio Neto, pesquisador e diretor da escola Espaço de Bitita/Infante Dom Henrique

Segundo ele, uma das melhores maneiras que estão encontrando de promover discussões é por meio de grupos de trabalho, buscando apoios específicos para intervenção em determinados grupos. A busca por parcerias também é importante para realizar trabalhos mais consistentes. “A escola tem que entender que aquilo que ela tem como matéria do seu fazer, da sua atuação profissional, do seu fazer pedagógico, não é do campo do comum. Essa ideia de escola como comunidade é um pouco deformada. A escola é uma sociedade, porque vai justamente trabalhar com as diferenças. O que nos une na escola não é uma questão sentimental. A questão da afetividade não deve prevalecer sobre o respeito. A questão familiar é calcada na afetividade e numa lógica de autoridade que não pode ser a da escola.”

Gabriela Treteski destacou um pouco do trabalho de Carlotas nas escolas e destacou a importância de garantir espaços seguros do ponto de vista emocional para estudantes. “É impossível aprender e nos desenvolvermos com qualidades se não nos sentimos benquistos naquele lugar, onde a gente precisa lutar o tempo todo para pertencer com alguma singularidade. Todos nós já sentimos em algum momento que não somos bem-vindos em algum lugar. E em algumas pautas isso é mais recorrente, em que alguns marcadores sociais são muito mais cruéis dentro de alguns espaços. É preciso parar e dialogar com temas específicos”, afirma Gabriela.