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Projeto Geração chega à fase de conclusão depois de 8 anos

Tempo de leitura: 6 minutos

Ao levar educação financeira a meninas e meninos, iniciativa alcançou 5.737 lares. Na última etapa, Geração treinou professores em dezenas de cidades para a disciplina nas escolas do Maranhão

Gleyce, uma das participantes do Projeto Geração

Oito anos atrás, a Plan International Brasil aceitou o desafio de levar educação financeira para crianças e adolescentes que vivem em áreas mais vulneráveis, muitas delas na zona rural, onde o dinheiro é tão escasso quanto a água, o transporte e os professores. Ao começar o Projeto Geração, fomos literalmente perguntar para jovens quais eram seus sonhos, não por curiosidade, mas pela certeza de que esses sonhos poderiam ser realizados – e porque nós queríamos ajudar nisso. Apostando no conhecimento, firmamos uma primeira parceria com 34 escolas públicas para aplicar a metodologia de ensino da ONG Aflatoun International com o e apoio financeiro do banco Credit Suisse. Desembarcamos no Maranhão, no Piauí e, naquele momento também em Pernambuco, para trabalhar a educação financeira com meninas e meninos.

Na primeira etapa do Projeto Geração, entre 2014 e 2017, as prefeituras de São Luís (MA), São José de Ribamar (MA), Paço do Lumiar (MA), Codó (MA), Teresina (PI) e Jaboatão dos Guararapes (PE) nos autorizaram a montar uma jornada de três horas diárias no contraturno das escolas públicas para levar a meninas um conteúdo que desenvolvesse habilidades para a vida, antes de tratar de economia. O público-alvo eram as meninas de 11 a 14 anos. São as mulheres que sofrem mais com a exclusão econômica, as disparidades salariais e as diferenças nas horas de trabalho. A metodologia da Aflatoun International trabalhou justamente conteúdos de habilidades para a vida e educação financeira (FELS) adaptados a uma lente de gênero.

“Quem eu sou?” e “O que quero ser?” foram o ponto de partida para construir um sólido projeto de vida. Depois foi o momento de conhecer sobre direitos e deveres na vida em sociedade, com todas se debruçando sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente. Em seguida, com base em dados que indicavam uma evasão escolar bastante considerável antes da conclusão dos ensinos Fundamental e Médio, o Geração se concentrou em informações sobre educação sexual e reprodutiva, já que muitas meninas deixam a escola quando engravidam na adolescência. Só depois as meninas acessavam efetivamente a Educação Financeira, temática que exigia muita prática para fixação.

A educação em habilidades para a vida sempre foi um destaque para as participantes. “O projeto me ajudou a me conhecer, a me reconhecer como menina

negra, e isso é mesmo algo para ser reforçado desde pequeno. Quando comecei no projeto, em 2019, eu era tímida, tinha medo da vida, tinha o cabelo curtinho. As pessoas diziam que lugar de menina é no fogão, e não jogando bola. Gradualmente, comecei a me aceitar e, hoje, me sinto empoderada para sair da zona de conforto, traçar meu destino e inspirar outras mulheres negras”, diz Gleyce, 19 anos, de Codó.

Educação financeira, efetivamente

Para falar de empreendedorismo, a Plan adaptou conteúdos e abordagem à realidade e à rotina das jovens. Abordamos o consumo consciente da água, da energia e dos materiais escolares para entender o orçamento familiar. Em aulas sobre como poupar, crianças e adolescentes foram encorajados a começar com uma rifa ou com a venda de pedaços de bolo na comunidade. Montamos planos de negócio, elencando despesas, receitas e lucros. Com o dinheiro arrecadado, a turma foi ao cinema. De olho no futuro, também falamos sobre os empréstimos feitos pelos adultos. Quando este é um bom recurso? Cabe para qualquer pessoa em qualquer momento da vida? Agências de alguns dos principais bancos nos receberam e mostraram os produtos e serviços oferecidos.

“A minha vida era uma bagunça e eu achava legal de falar, ‘nossa, está tudo bagunçado, mas tudo bem, é a minha bagunça, eu me entendo’. Mas então chega o Geração com aquelas práticas lúdicas de ensino: ‘Vamos fazer uma brincadeira? Vamos planejar um orçamento familiar?’. E aí você chega em casa e começa a pensar: ‘qual é o orçamento da minha família? como posso ajudar?’”, diz Alice, 18 anos, do município de Teresina, no Piauí. “Percebi que eu tinha que arrumar a minha vida em primeiro lugar, planejar o que fazer, as minhas ações, os novos hábitos que quero cultivar para que meus sonhos se realizem”, completa. Alice tem um projeto de cosméticos, o Cheiro Nordestino, em que promove o autocuidado por meio da produção de sabonetes.

Na primeira etapa, 2.800 meninas receberam os conteúdos do projeto, e formamos 132 professores aptos a compartilhar conhecimento em sala de aula. As famílias participaram da evolução das meninas em 18 comitês.

Segunda etapa

Em 2018, quando ainda estávamos na metade do percurso, o governo federal concedeu ao projeto o selo ENEF, que reconhece iniciativas alinhadas à Estratégia Nacional de Educação Financeira. A certificação nos inspirou a avançar e iniciamos a segunda etapa do Projeto Geração, ampliando o alcance com a participação de

meninos, após uma demanda deles mesmos. A faixa etária atendida alcançou os 17 anos, e o foco se concentrou em Teresina (PI), São Luís (MA), São José do Ribamar (MA), Paço do Lumiar (MA) e Codó (MA). “Tenho muitos amigos machistas, que acham que só porque somos homens não temos que participar. Eu mostrei a eles que eu tinha interesse. Com o projeto, aprendi sobre finanças, como poupar dinheiro e percebi que sou capaz de começar minha própria empresa”, afirma Anderson, 13 anos, morador de Teresina.

Montamos os Clubes Standard, que duravam oito meses, para a formação de jovens multiplicadores. Depois, essas e esses jovens compartilhavam o que aprendiam de segunda à sexta-feira nos Clubes Expressos. A educação de pares – com adolescentes ensinando para adolescentes – é um método que usamos em vários projetos e que potencializa nossas ações. Uma menina que se torna uma educadora de pares multiplica conhecimento com suas colegas de escola, com sua família, em sua comunidade, contribuindo para a promoção da igualdade de gênero. Foram 295 educadores pares formados. Ao mesmo tempo, professoras e professores recebiam educação continuada sobre a mesma metodologia para que capacitassem para ensinar educação financeira e empreendedorismo. Somamos 318 professores engajados no projeto. Na segunda fase, também incluímos no programa o intercâmbio entre integrantes dos grupos para a troca de experiências.

Em 2020, nem a pandemia nos parou. Ao contrário, a partir de março daquele ano encaramos o desafio da exclusão digital, adaptamos as atividades para o on-line, migramos para o WhatsApp, para o Google Meet e para o YouTube. Compramos aparelhos celulares, chips e pacotes de dados para que as meninas e meninos pudessem acessar as atividades. Como resultado, alcançamos adolescentes que antes não podiam participar presencialmente, como meninas e meninos de Coelho Neto, no Maranhão, por meio do Rotary Clube do município.

Recebemos de jovens pedidos de mais abordagens sobre orientação vocacional. Trabalhamos para que soubessem onde procurar vagas de emprego, como montar um currículo e como participar de processos seletivos. Promovemos encontros de mentoria e entregamos 23 kits de apoio com insumos para que adolescentes começassem a empreender. Por meio de transmissões on-line, levamos profissionais para compartilhar suas experiências, como Karine Oliveira, da Wakanda Educação Empreendedora, Janaina Gomes, gerente de reputação e comunicação na Avon, e a influenciadora Amanda Dias, do perfil Grana Preta. As atividades continuaram a enfatizar o empoderamento das meninas, como a escolha de mulheres inspiradoras para os eventos e a celebração anual do Dia Internacional da Menina.

“As pessoas diziam ‘homem faz isso, mulher faz aquilo’, tipo, ‘não pode mudar’. E eu me conformava. Eu não tinha muito sobre o que falar ou pensar. E então passei a me perguntar ‘quem sou eu?’. Com o Geração, com os módulos, as coisas foram se esclarecendo. Me sinto mais presente nas coisas. Não consigo mais ver a injustiça de uma mulher dizer que não pode fazer algo. Não vai fazer por quê, mulher? Não consigo não me meter. Sei dos meus direitos, dos meus deveres, do que não devo fazer e onde posso estar”, conta Evelyn, de 19 anos, de São Luís.

Na segunda etapa, jovens também contaram com o apoio e a participação das famílias. Foram realizadas rodas de diálogo com pais, mães, cuidadoras e cuidadores, que alcançaram 281 participantes durante todo o ciclo, sendo 265 mães e 16 pais. Calculamos que 5.737 lares foram impactos. Durante todo o ciclo do projeto, treinamos 786 meninas e meninos na metodologia.

Legado

O Projeto Geração finalizou seu último ciclo de atividades em junho de 2022 com ações de sustentabilidade para que a educação financeira seja trabalhada nas escolas e comunidades. As instituições de ensino se comprometeram com a manutenção dos Clubes Expressos, dos Clubes Standard e com a formação de professores. A educação financeira se tornou disciplina eletiva nessas escolas, e trabalhamos na implementação de uma plataforma on-line com os conteúdos sobre habilidades para a vida, empreendedorismo e empregabilidade para que meninas, meninos, professoras e professores possam acessá-lo.

“O impacto do projeto está relacionado diretamente às percepções, à mudança real na vida das meninas, porque quando uma menina tem acesso à educação, a informações, é possível mudar a sua realidade. Ela vai muito longe, termina o Ensino Médio, vai para uma universidade, empreende ou consegue um emprego, e é capaz de mudar a realidade do entorno”, afirma Creuziane Barros, gerente de Unidades de Programas e Patrocínio.

Também promovemos uma campanha nas mídias sociais e em rádios pela implementação da disciplina nas escolas. Foi só no ano de 2020 que o Ministério da Educação (MEC) tornou obrigatório o ensino da disciplina para crianças e adolescentes, mas nem todas as instituições conseguiram implementá-la ainda. Pela adesão das escolas, oferecemos formação de 40 horas para professores das secretarias estaduais e municipais de Educação do Maranhão para prepará-los na metodologia sobre educação financeira, habilidades para a vida e empreendedorismo.

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