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Projeto Ciranda atua no sul do Maranhão para resgate cultural e cuidados para comunidades quilombolas

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Serão cerca de 300 famílias beneficiadas nos quilombos de São Benedito dos Colocados, Boqueirão dos Vieiras e Matões da Rita, nas cidades de Codó e Peritoró

Fotos do dia do brincar em família, realizado no mês de maio nos quilombos

Resgatar a cultura, as tradições, brincadeiras e saberes populares. Esse é um dos objetivos do projeto Ciranda, que começa sua atuação em três comunidades quilombolas nas cidades de Codó e Peritoró, no sul do Maranhão. O Ciranda vai trabalhar diretamente com profissionais da saúde, educação, assistência social e integrantes de comitês comunitários de desenvolvimento infantil, dando ênfase ao processo de vinculação com seus filhos e filhas a partir da promoção de ações socioeducativas e de sensibilização.

Um diferencial da abordagem da Plan está em implementar uma iniciativa com foco nos saberes tradicionais das comunidades quilombolas, respeitando a cultura e a ancestralidade desses povos, desde o desenho da metodologia de intervenção até a elaboração dos planos municipais pela primeira infância.

No total, são 300 famílias das comunidades de São Benedito dos Colocados, Boqueirão dos Vieiras e Matões da Rita, além de 140 mães, pais, cuidadores, cuidadoras e mais de 103 crianças de 0 a 6 anos diretamente beneficiadas com ações socioeducativas, visitas domiciliares, intervenções profissionais de cunho intersetorial adequadas e sensíveis às questões de gênero, raça e etnia. O projeto estima que cerca de 296.860 crianças possam ser beneficiadas pela aprovação dos planos municipais pela primeira infância, de acordo com dados do IBGE.

O Maranhão é o terceiro estado com maior concentração de comunidades quilombolas no país, com 866 quilombos. Os problemas enfrentados por essas comunidades vão desde questões estruturais, como saneamento básico, até os problemas sociais e culturais, como a dificuldade de acesso a escolas e hospitais.

Por isso, o projeto inclui intervenções comunitárias, por meio de ações com as famílias, crianças e suas comunidades quilombolas, junto aos profissionais da saúde e assistência social, além de integrantes do comitê comunitário de desenvolvimento infantil, que juntos formam uma rede de proteção que busca ser referência na primeira infância. Antes do início do projeto, os levantamentos iniciais apontaram que não foram identificados estudos ligados ao desenvolvimento infantil e a parentalidades em comunidades quilombolas, o que reforça a necessidade de uma intervenção focada e com alto potencial de replicabilidade e ganho de escala.

Fotos do dia do brincar em família realizado no mês de maio nos quilombos

De acordo com Gezyka Silveira, especialista em Proteção e Desenvolvimento Infantil da Plan International Brasil, as comunidades quilombolas estão em extrema vulnerabilidade em decorrência de um processo histórico de racismo estrutural que tem estabelecido desigualdades socioeconômicas graves a essa população, como a baixa escolaridade em razão das dificuldades no acesso e na permanência escolar, acesso limitado a serviços socioassistenciais e de saúde, além de condições precárias de habitação, em razão de questões relacionadas à insegurança na permanência e titularidade de seus territórios.

“A Plan se preocupa com o desenvolvimento desses territórios, centralizando suas intervenções na promoção de direitos humanos de crianças e adolescentes”, diz Gezyka ao acrescentar que somente em Codó há 30 comunidades quilombolas.

Metodologia diferenciada

O projeto foi estruturado para criar uma metodologia que fosse o seu maior diferencial, desenvolvida a partir da real necessidade das comunidades, alinhadas às intervenções dos espaços de saúde, educação e assistência social, com enfoque na parentalidade positiva e sendo sensível às questões de gênero, raça e etnia.

Gezyka explica que a proposta não é interferir na autoridade familiar ou nas questões culturais associadas à educação dessas comunidades tradicionais, mas orientar e apoiar as famílias quanto aos cuidados cotidianos e específicos de cada faixa etária, promover ações que favoreçam as práticas parentais positivas por meio do envolvimento responsável no brincar e nos cuidados diários, de forma que eles possam desempenhar plenamente seus papeis no desenvolvimento na primeira infância. “O projeto traz uma metodologia própria, desenvolvida a partir da realização de um diagnóstico territorial participativo junto a essas comunidades, que contou com estudo etnográfico, observações, aplicação de entrevistas e grupos focais”.

Para Gezyka, também é importante ressaltar que as políticas públicas intersetoriais não alcançam as comunidades rurais, sobretudo as tradicionais, e, quando alcançam, isso acontece de forma precária. “Justamente por isso é necessário um maior esforço e dedicação, articulações entre as políticas públicas de atendimento básico (saúde, educação e assistência social), sensibilização dos gestores e tomadores de decisão, para que tenham um olhar sensível à primeira infância e para o fortalecimento dos vínculos das famílias que ocupam esses territórios”. E é por isso que o projeto Ciranda, executado até janeiro de 2023, tem um poder social tão transformador.

À medida que trabalha a primeira infância e as relações étnico-raciais a partir de uma perspectiva participativa e com foco na sustentabilidade resgata e respeita a ancestralidade e a cultura das comunidades quilombolas. Assim, será possível transformar, no longo prazo, a realidade dessas comunidades. “Um dos eixos do Ciranda trará o fortalecimento das ações da Rede Estadual Primeira Infância do Maranhão (REPI), por meio do incentivo e apoio direto na elaboração de planos municipais pela primeira infância e de influência junto aos tomadores de decisão, alcançando níveis intersetoriais e promovendo ações integradas para a primeira infância e parentalidade positiva”, diz Gezyka.

O projeto conta com o financiamento da Fundação Porticus, que tem tido um papel importante a partir de uma iniciativa própria de criar um mosaico composto pelas instituições que implementam projetos voltados para a primeira infância e as relações étnico-raciais financiados pela Fundação. A Porticus oferece e gerencia, por meio de uma consultoria especializada e de profissionais da área convidados, um espaço de troca de experiências e aprendizados a partir das práticas e pesquisas realizadas além da produção de conhecimento e materiais. Tudo compartilhado por meio de uma plataforma. A iniciativa proporciona discussões e aumento de saberes entre representantes de diversas instituições, que servem de referência para a execução de projetos. Isso permite reflexões, replanejamentos e qualificação das ações, o que ampliação de alcance das informações e a realização de novas parcerias.

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