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Alice, 19 anos, criou a própria marca de cosméticos no Piauí

Tempo de leitura: 5 minutos

Jovem aprendeu sobre educação financeira e empreendedorismo no Projeto Geração

Alice estava conversando durante a aula na escola pública em que estudava em Teresina, no Piauí, quando a vida dela começou a mudar. Àquela altura, ela só queria passar de ano e engolir a raiva que sentia porque as pessoas fofocavam sobre os términos de relacionamento alheios, sempre criticando a menina. Foi então que Thayná Lima, facilitadora de projetos da Plan em Teresina, entrou pela porta da sala. Thayná convidava a turma para fazer parte do Projeto Geração, iniciativa da Plan International Brasil em parceria com a ONG Aflatoun, que leva noções sobre educação financeira e igualdade de gênero a crianças e adolescentes no Maranhão e no Piauí.

Alice ficou em dúvida sobre a parte de estudar finanças porque temia a matemática. A mãe dela também ficou bastante preocupada com a possibilidade de a filha não conseguir dar conta do projeto e dos estudos. Ela estava começando o Ensino Médio e era momento de ter foco total no vestibular. Mas ela topou. Convenceu outras colegas e formou o “Clube Empoderar”. Depois disso, vieram outros desafios. A pandemia obrigou o projeto a se adaptar ao on-line, mas Alice continuou em frente. Pegou-se ouvindo mais as experiências dos outros, planejando. A mãe aprendeu com a filha e começou a vender sorvetes para conseguir uma renda extra.

E logo Alice voava para bem alto – até para São Paulo, onde discursou para uma plateia de executivos. E não parou mais. Questionada quando o Projeto Geração terminou para ela, respondeu que “como faz parte de mim, não consigo ver um fim”. Alice desenvolveu uma marca de cosméticos e aromaterapia, a saboaria Cheiro Nordestino. Fica emocionada quando encomendam ‘mais sabonetes de argila branca’, e tem planos para curto, médio e longo prazo, sendo um deles, vender para as futuras colegas universitárias os produtos que ela mesma produz. Alice agora está estudando para prestar Medicina. Confira a seguir a entrevista com ela.

Quando você teve contato com o Projeto Geração e quais foram suas primeiras impressões?

Eu tive contato com o projeto na escola, durante o 1º ano do Ensino Médio. Eu tinha 15 anos e estava cochichando na aula com uma amiga, reclamando sobre a forma como meninas e mulheres eram malfaladas em términos de relacionamentos, submetidas a rótulos ridículos. E, no meio daquele desabafo corriqueiro, bateram na porta da sala, pediram licença. A turma silenciou, curiosa, e a professora Luciana, de Sociologia, nos apresentou para a Thayná Lima, facilitadora de projetos da Plan. Ela falou sobre o Geração e sobre as temáticas que seriam trabalhadas. Lembro de trocar olhares espantados com minha amiga como se disséssemos: ‘Com certeza é um sinal. A gente tem que participar’.

A história da educação financeira me deixou com um pé atrás. Eu tinha medo de não me sair bem porque não me sentia confiante na matemática. Mas fiquei empolgada demais e decidi que, se os números viessem, eu aprenderia a lidar melhor com eles. Então, Maria Eduarda, Sulamita e eu decidimos participar.

Depois, houve outro porém. Era preciso convencer mais meninas a participar para que um clube fosse formado. Conversamos com as colegas, argumentamos que seria legal e importante, que teria lanche, e que o curso poderia ir para o currículo. Foi assim que construímos, aos pouquinhos, o ‘Clube Empoderar’.

Como sua família lidou com a sua participação no projeto? Você levava o que aprendia para ela?

Quando avisei minha mãe sobre a participação, ela disse: ‘Que projeto, Alice? Que ONG? Me explica direitinho’. Nesse começo, eu tentei tranquilizá-la, repassei tudo que eu sabia e disse que a Thayná poderia explicar melhor. Ela nunca me disse, mas sei que ficou muito preocupada com a possibilidade de eu não dar conta de tanta coisa. Com o passar do tempo, vi o temor dela dar lugar à empolgação, conforme eu chegava em casa e contava sobre o que estávamos desenvolvendo. Ela inclusive se inspirou na iniciativa e empreendeu. Começou a vender sorvetes em casa para conseguir uma renda extra. Minha mãe se tornou meu maior apoio para seguir firme no projeto e na construção dos meus sonhos.

De quais atividades você participou no período e quando a jornada com o Geração terminou?

O projeto me proporcionou contato com pessoas e vivenciar momentos incríveis, até então nunca sonhados. Comecei em 2020, ano de pandemia, com a participação remota e atividades com meninas e meninos de outras escolas. Depois disso, iniciamos as multiplicações on-line. Então, vieram o ‘Seminário Mulheres e mundo do trabalho’, o Dia da Menina na Câmara Municipal de Teresina e em São Luís, no Maranhão. Ocupei por um dia o cargo de secretária de finanças aqui na capital do Piauí, participei do Monitoramento Liderado por Meninas, do projeto Aceleradora da Igualdade. Fui a São Paulo para participar de um evento de sustentabilidade e finanças em que falei para uma plateia importante. Ainda ocupei um cargo na embaixada finlandesa para o movimento Meninas Ocupam.

E, de tudo isso, a atividade que mais guardo no coração é a ‘Árvore dos Sonhos’, que funcionou para mim como uma autodescoberta. Me fez perceber o que me mantinha forte e os sentimentos que alimentam meus sonhos. Toda essa experiência me dá um sentimento indescritível de gratidão e orgulho da minha trajetória no Geração. Por isso que, na verdade, eu nunca senti o encerramento do projeto, mesmo que tenham feito uma festa de encerramento no final de 2021 com um piquenique. Como faz parte de mim, não consigo ver um fim.

Como surgiu a ideia de criar uma marca?

Eu nunca tinha pensado em ser empreendedora. Provavelmente, eu teria passado a adolescência acreditando que não era para mim. Cheguei a conversar com uma amiga sobre como a nossa região carecia de produtos para cuidados com a pele, que explorassem a potência da aromaterapia, e foi através da Plan que a saboaria saiu do papel. Produzir os sabonetes, os difusores, as velas e tudo mais me deixa feliz e calma.

Hoje, é emocionante receber bons feedbacks. Me motiva a melhorar os itens a cada nova produção. Sempre que alguém diz ‘preciso de mais sabonetes de argila branca’ meu coração fica quentinho. Sei que estou no negócio certo.

Como o Projeto Geração impactou você?

Antes do Geração, eu só contava com minha própria experiência e não saía da minha bolha. O projeto implodiu essa bolha e me mostrou que o mundo é enorme, que cada um tem sua vivência, suas lições, e que todos podem aprender se decidirem escutar. O projeto me ensinou a ser mais empática, a acolher, a não julgar precipitadamente o outro. Me ensinou que eu poderia realizar meus sonhos se eu decidisse. Me ensinou na prática que ‘quem planeja errado, planeja falhar’. Me ensinou que a mudança começa em mim, e que a minha voz pode ajudar alguém a sair de uma situação de violência. Que posso incentivar, encorajar outras pessoas e derrubar o patriarcado.

Agora, quais seus planos a curto, médio e longo prazo?

Estou com 19 anos, sigo com a saboaria e estou estudando para o Enem.

Meus planos de curto prazo são prestar vestibular, aumentar o alcance da empresa nas redes sociais, dedicar mais tempo a ela, e concluir minha meta de leitura do ano. No médio prazo, eu espero cursar uma universidade e inclusive divulgar a saboaria por lá.

No longo prazo, quero terminar a universidade e abrir uma loja física para a minha marca com pelo menos dois funcionários.

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