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Driblando o perigo para chegar à escola

“As meninas são mais vulneráveis na minha comunidade. Você não pode caminhar sozinha ou pode ser atacada assim como a minha irmã foi. As mulheres que andam sozinhas são vistas como presa fácil" - a violência faz parte do cotidiano da comunidade de Laricê: todos os dias, ela sai de casa e enfrenta situações de risco apenas para conseguir estudar.

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Brasil

“Meu nome é Laricê. Vivo numa comunidade perigosa de São Luís, Maranhão, com a minha mãe e irmãos. Meu pai está trabalhando fora na maior parte do tempo, mas nós somos muito unidos, minha mãe faz o que pode para garantir a nossa segurança.”

“Viver numa comunidade violenta é opressor, não me sinto segura. Não me sinto confortável saindo de casa e, se eu convido alguém para a minha casa, isso já aumenta as suspeitas das gangues que vivem por perto e eles podem pensar que estou convidando para casa alguém de uma gangue rival.”

“As meninas são mais vulneráveis na minha comunidade. Você não pode caminhar sozinha ou pode ser atacada assim como a minha irmã foi. As mulheres que andam sozinhas são vistas como presa-fácil, então é melhor caminhar com um homem. Eu me preocupo muito com a segurança da minha irmã mais nova e do meu irmão – eu me sinto mais segura quando estamos em casa juntos. Uma vez, minha irmã foi comprar pão, minha mãe teve um mau pressentimento e me pediu para procurar a minha irmã. Quando eu a vi, dois homens correram para a minha direção com uma arma, e eles estavam sendo seguidos por outro grupo. Eu logo percebi que eram duas gangues brigando entre si. Eu fiquei aterrorizada, como se não houvesse aonde se esconder.”

“É por isso que a escola é tão importante para mim. É a minha única oportunidade de sair daqui e aprender com outros os estudantes. Eu não carrego nada de valor na minha ida à escola, eu apenas coloco meus cadernos e livros na mochila. Eu nem sequer levo a minha identidade, pois tenho medo de que seja roubada.”

“Quando eu saio de casa, eu me sinto segura o suficiente para andar na rua com o meu celular na minha mão, mas assim que eu chego na avenida principal, eu tenho que escondê-lo.”

Todos os dias, eu saio de casa às sete. Levo 30 minutos para chegar na escola à pé – eu me preocupo com essa ida todos os dias, pois eu passo por muitos lugares perigosos.

“Antes de chegar na avenida principal, eu escondo o meu celular dentro da minha calça e cubro com a minha camisa. A avenida é mais movimentada e tem mais pessoas passando, então eu não me sinto mais segura.”

“Este é um dos lugares mais perigosos do meu caminho até a escola. Foi aqui aonde a minha irmã foi roubada. Ela estava andando com um grupo de meninas quando eles a avistaram e disseram: ‘Eu sei que você tem celular – me da o seu celular ou eu vou atirar’”.

“Se uma moto passa, eu fico preocupada caso eles aproveitem a oportunidade para me abordar.”

“As gangues costumam fugir pelo mato depois do ataque. Eu caminho por este caminho todos os dias e é sempre um momento de muito nervosismo.”

“Depois de 30 minutos driblando o perigo, eu chego à escola. Aqui eu aprendo muita coisa e participo de atividades e projetos oferecidos pela Plan International Brasil. Eu até sou parte do projeto Escola de Líderes para Meninas, aonde eu posso falar alto e claro sobre a violência contra meninas e mulheres e sobre a luta por igualdade. Eu sempre me sinto segura na escola. Espero que um dia as coisas possam ser diferentes e eu não fique mais com medo de caminhar para a escola.”

No Brasil, uma mulher é agredida a cada 15 segundos, e uma mulher é assassinada a cada 2 horas. A Plan International Brasil, organização que luta pelos direitos das crianças, está trabalhando para acabar com a violência contra meninas e mulheres no Brasil.