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A dança salvou minha vida

Girlene foi uma vítima da violência de gênero: na infância, ela foi agredida fisicamente por seu pai e estuprada pelo padrasto. Hoje, ela atua em defesa dos direitos das meninas e mulheres.

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Brasil

Ela encontrou esperança através da dança e quer dividir a sua história para que as próximas gerações de meninas não sofram o que ela sofreu.

“A minha mãe sofreu violência por parte do meu pai. Eu era muito pequena e não notei. Um tempo depois ele violentou fisicamente minha mãe, minha irmã e eu. O nariz da minha irmã foi quebrado e minha clavícula fraturada. Minha mãe se separou dele – eu tinha aproximadamente 10 anos.”

“Foi quando comecei a trabalhar como empregada em uma casa, mas a violência continuou. Voltava para casa uma vez por mês, deixava o dinheiro que recebia com a minha mãe (por volta de R$30 por mês) e retornava para a casa aonde eu trabalhava, mal comia e era obrigada a dormir no chão. Depois de seis meses, minha irmã e eu estávamos totalmente exaustas e não podíamos mais aguentar, então voltamos a morar com a minha mãe.”

“Naquele momento a minha mãe estava vivendo com outro homem. Os primeiros dias foram maravilhosos, ele nos tratava muito bem e voltamos para a escola. Então ele começou a ficar incomodado com a nossa presença. Não podíamos mais ligar as luzes para estudar, e quando voltávamos da escola, já não tinha mais comida, porque ele jogava fora. Minha mãe o apoiava e quando nossos vizinhos descobriram o que estava acontecendo, eles começaram a nos dar comida.”

“Eu me matriculei em um curso de dança – eu amava dançar. Um dia cheguei em casa e fui tomar banho. O chuveiro ficava do lado de fora de casa e não tinha porta, apenas uma cortina. Enquanto eu tomava banho, meu padrasto entrou, colocou suas mãos na minha boca e me estuprou. Eu tinha 13 anos. Quando ele terminou, me empurrou. Eu caí no chão tentando entender o que havia acontecido. Eu estava sentindo muita dor e tinha muito sangue. Desde esse dia eu ainda tenho lembranças deste momento, apesar de já ter tentado apagar isso da minha memória.”

“Meu padrasto disse que minha mãe não ia acreditar em mim. Ele estava certo. Quando eu tentei contar no dia seguinte, ela não me deixou nem terminar de falar. Ela me interrompeu dizendo que era coisa da minha cabeça.”

“Eu passei alguns meses vivendo lá... Ele continuou a me assediar e continuou a me tocar inapropriadamente. Se eu estava na cozinha, ele pegava no meu cabelo, na minha nádega ou nos meus seios... Eu tinha medo de ficar em casa com ele. Se a minha mãe estivesse fora, o assédio era pior.”

“O relacionamento dele com minha mãe estava se deteriorando. Em certo momento ela tentou mandá-lo embora, mas no dia seguinte foi atrás dele e ele voltou para casa. Um dia eles tiveram uma briga muito feia e quando eu cheguei da escola, ela disse que não queria que a gente morasse mais com ela. Disse também que estava feliz com ele e que não queria deixá-lo por nada. Então, ela abriu a porta da frente de casa e nos mandou embora.”

“Minha irmã foi morar com o namorado. Eu passei dois dias dormindo na rua. Queria ficar com minha irmã mais velha, mas não deu certo. Ela é branca. Minha irmã do meio e eu somos negras e eles não nos queriam lá.”

À procura de esperança

“Foi quando eu conheci dois educadores sociais que foram muito importantes para a minha vida e são até hoje. Uma delas me convidou para viver com ela e sua família. Eu morei por alguns anos lá. Não tive nenhum contato com alguém da minha família até completar 16 anos.”

Girlene dançando. Foto: Plan International / Natalia Moura

“Então comecei a criar autoconfiança, participei de muitas oficinas como aquelas ministradas pela Plan International Brasil. Aprendi sobre exploração sexual, meus direitos e protagonismo infantil. Eu costumava ser muito tímida, mas eles me encorajaram a achar minha voz. Na verdade, depois que comecei a fazer parte de um projeto de comunicação, finalmente encontrei forças para contar a um dos educadores sociais o que aconteceu quando eu só tinha 13 anos de idade.”

“A dança me fez ter esperança. Dançar é tudo para mim. Um dos estilos que mais gosto de dançar é o Samba de Gafieira, porque é feliz, animado. Dançar me ajudou a lutar contra este monstro enorme que esteve ao meu lado. Quando eu dançava, me sentia maior e mais forte que esse monstro.”

“Fico emotiva quando falo sobre a dança, pois hoje em dia eu não sinto mais dor. Na primeira competição de dança que participei, fiquei em primeiro lugar apesar de não ter tanta experiência, apenas paixão. Eu não queria que ninguém sentisse pena de mim, eu não sinto pena de mim mesma. Dançar me libertou dos demônios que me mantinham acordada durante a noite. Dançar - do Samba à Valsa - fez eu me sentir como um patinho feio que se tornou um lindo cisne. Não há dinheiro no mundo que compre esse sentimento.”

Combatendo a violência sexual

“A violência sexual é um problema sério no Brasil devido à deficiência nas políticas públicas, isso gera muitos outros problemas também. No meu caso, minha mãe também sofreu. Ela não era violentada sexualmente, mas ela sofreu violência. Ela tinha que trabalhar para nos sustentar. Quando viu que poderia se sentir segura com um homem, não queria perder a “segurança” que ele trouxe para casa por nossa causa. Se esses problemas forem combatidos através de sensibilizações – assim como as que a Plan International Brasil desenvolve – as meninas podem ter um futuro diferente. Com o tempo, consegui perdoar minha mãe e nós temos um bom relacionamento agora.”

Falando sobre o assunto

“Eu não queria ter guardado esse segredo por tanto tempo. Mas me sentia como se fosse culpada. Agora percebo que não tive culpa de nada. Quem sobreviveu nunca é culpada. Como você pode se culpar por uma pessoa doente pensar que pode roubar a sua infância?”

“Hoje tenho 30 anos. Sou formada, tenho um estúdio de dança com meu marido e eu sou educadora. Conquistei tudo o que sempre quis porque consegui me manifestar sobre o assunto e aqueles que acreditaram em mim me fizeram perceber que posso fazer a diferença.”

“Uma grande parte da minha vida foi dor, mas hoje me sinto livre. Quando olho meu passado, coloco meu presente na frente de tudo aquilo e consigo enxergar todas  as coisas que conquistei a partir do momento em consegui falar sobre o assunto.”

“Para todas as meninas e mulheres que sofreram o que eu sofri, por favor, denunciem! Não deixem ninguém sair impune disso. Falem com alguém de confiança, que acredite em você – alguém que você sabe que pode fazer a diferença. Vamos mostrar à sociedade que nós não temos que ficar caladas.”