Crescer em meio à violência e ser mãe aos 17 | Plan Brazil Pular para o conteúdo principal

Crescer em meio à violência e ser mãe aos 17

Charlienne, 17 anos, casada e com um filho, mas com o apoio da Plan International Brasil, ela está determinada a não repetir a história de sua mãe.

“Eu não queria casar tão jovem. Eu queria viver por mim mesma. Foi aí que conheci o meu marido. Eu tinha 16 anos, ele 17. Foi o meu primeiro namorado. Quatro meses depois eu estava grávida.” Diz Charlienne, 17 anos – uma carismática menina de cabelos encaracolados.

Sentados na sombra de uma árvore no seu quintal em São Luís (MA), Charlienne revela como é crescer em uma comunidade caracterizada pela violência e pela gravidez precoce:

“Eu estava com muito medo de contar à minha mãe e ao meu pai sobre a minha gravidez , ninguém esperava por isso.”

Charlienne viveu uma infância difícil, casos de violência não eram incomuns enquanto ela crescia.

Quando sua mãe ficou sabendo da gravidez, a apoiou.

“Minha mãe e eu sempre fomos muito unidas, mas eu fiquei surpresa com a ajuda que recebi dela. Eu sabia que ela tinha brigado muito com o meu pai sobre esse assunto. Ela me disse que seria melhor para o meu namorado e para mim se tomássemos conta do filho juntos e ela nos encorajou a morar juntos. Três meses depois eu me casei e fui morar com o meu marido.”

Charlienne e sua mãe, Raimunda, que a apoiou durante a gravidez. Foto: Plan International / Natalia Moura
É comum casar cedo na minha comunidade.

Como muitas outras mães de adolescentes na comunidade dela, não era a vida que Charlienne esperava, mas ela aceitou a situação.

“Casamento e gravidez não era o que eu tinha planejado para a minha vida, mas aconteceu”. Ela fala francamente. “Agora eu vivo com o meu marido de 19 anos e a família dele.”

Na região Nordeste do Maranhão, essa prática é comum. Há um alto número de meninas que, na faixa dos 15 anos, se casam ou passam a viver com o parceiro. Segundo o senso realizado pelo governo em 2010, 877.000 meninas entre 20 e 24 anos se casaram com 15 anos de idade.

No Brasil, o casamento precoce é fortemente ligado à violência de gênero, uma vez que direciona as escolhas das meninas. O machismo e a violência estão tão enraizados que são aceitos como coisas normais em muitas comunidades.

O Diretor de Programas da Plan International Brasil, Luca Sinesi, diz:

“A pesquisa feita pela Plan International Brasil revela que muitas meninas acham que a forma mais fácil de escapar da violência do dia-a-dia é achando um parceiro. Não é necessariamente por opção delas, mas sim porque é a sua única escolha.”

“É comum casar cedo na minha comunidade.” Revela Charlienne. “Muitos dos meus amigos se casaram, e a minha mãe também casou muito cedo. Minha cunhada está na mesma situação que eu. Ela ficou grávida aos 15 anos e o filho dela tem 1 ano de idade hoje.”

Enquanto gravidez precoce é um dos fatores que levam ao casamento precoce, e que pode levar as meninas a largarem os estudos, Charlienne estava determinada a fazer as coisas de uma forma diferente.

“Eu nunca saí da escola. Eu continuei até quando estava grávida. Depois que o meu bebê nasceu, eu voltei à escola depois de um mês. Entretanto, eu não poderia ter feito isso se não fosse pela minha sogra e pela minha mãe que me ajudaram a tomar conta do bebê.”

Quanto ao relacionamento de Charlienne com seu marido, ambos têm aprendido a lidar com as diferenças.

“Nosso relacionamento é bom, não posso dizer que é ruim. Mas também não é perfeito, porque não estamos em nossa própria casa. Nós brigamos sim, mas eu acho que é algo normal e nós sempre nos esforçamos e conversamos sobre nossos problemas.”

“Se o meu marido batesse, eu iria para a casa da minha mãe e o denunciaria para a polícia. Violência contra a mulher não deve ser tolerada.”

Com a ajuda da Plan International Brasil, Charlienne tem aprendido a como se manter em segurança e como combater a violência em sua comunidade.

“A Plan International Brasil tem me ensinou sobre violência contra a mulher, violência sexual e violência entre os adolescentes. Eu aprendi muitas coisas boas e fiz novos amigos. Eu agora me sinto confiante para falar abertamente sobre os meus direitos.”

Charlienne se sensibiliza quanto ao problema de violência em sua comunidade e assumiu a tarefa de compartilhar com outras meninas e mulheres informações sobre os seus direitos. Ela também não se cala quando precisa relembrar aos homens da comunidade sobre a importância da igualdade.

“Quando aprendo algo novo pela Plan International Brasil, eu passo adiante para a minha família e amigos. Não é legal manter esse tipo de informação para si mesmo, então eu gosto de dividi-la com outras pessoas para que todos possam aprender também – inclusive os homens.”

“Ontem, meu cunhado disse que mulheres não podem fazer as mesmas coisas que os homens, apesar dele ter participado de uma oficina de sensibilização. Não foi legal, então eu o confrontei. Para mim, qualquer coisa que um homem pode fazer, as mulheres também conseguem fazer. Nós somos iguais.”

Para o futuro, Charlienne recusa-se a a se dedicar apenas ao casamento e fala de seus sonhos.

“Eu quero terminar meus estudos e então estudar para ser uma psicóloga. Espero que o futuro seja bom para mim – e para o resto do Brasil. Eu quero ver o fim do machismo, o fim da violência contra as mulheres e também o fim do estupro.”