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As cambalhotas de Layza rumo a um futuro melhor

Os rincões do Brasil são lugares que, muitas vezes, parecem ter sido abandonados à própria sorte pelo poder público. É o que se sente ao andar pelas ruas de terra de uma comunidade rural de São Luís (Maranhão).

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Ali, o mínimo não está presente. As 980 famílias dessa comunidade convivem com a falta de saneamento básico, com a ausência de postos de saúde, com um sistema educacional composto por apenas uma escola, incapaz de atender todas as alunas e alunos.

Em meio à miséria, a fome é uma constante, assim como a propagação de doenças. Na religião, muitos são os que buscam um refúgio para curar as dores do corpo e da alma. Se existe apenas uma escola, há, por outro lado, seis templos evangélicos, uma igreja católica e um terreiro de umbanda. Só que, sozinha, a fé é incapaz de resolver os problemas sociais dos moradores dessa comunidade.

É nesse espaço esquecido por tantos que vive Layza, estudante de apenas 12 anos. Quem vê a menina correndo pela rua de terra de sorriso no rosto não imagina a triste realidade em que ela vive, não compreende como a falta de investimento onde ela mora roubou uma série de oportunidades de um futuro melhor. 

Caçula de quatro filhos, mora com os pais e um dos irmãos, hoje com 13 anos. As duas mais velhas já saíram de casa. Ainda estuda na escola da comunidade, que oferece os primeiros anos do ensino fundamental, mas logo terá que viajar todos os dias de ônibus para a cidade vizinha, caso decida continuar estudando. Aliás, estudar é uma palavra bem relativa em seu mundo, com significado diferente do que está na cabeça de muita gente. Ali, não existem livros, não há bibliotecas. 

Sem referências, talvez nem ela imagine como sua rotina poderia ser diferente de tudo isso. Pelo contrário: é grata por ter uma casa para morar com os pais e feliz por viver nessa comunidade, onde todos se ajudam. “Se precisa de algo, a minha comunidade faz uma vaquinha e compra. Há pouco tempo, a gente precisava de um trator para passar aqui e diminuir os buracos. Todos contribuíram e conseguimos. Todo mundo vive junto, como uma grande família. A gente vive em comunhão”, diz, com um discurso que não esconde a influência da religião.

Hora de brincar e aprender

Layza conheceu a Plan International Brasil pela primeira vez na escola, quando uma educadora convidou os alunos para participar do projeto Cambalhotas. Desde o início, já se interessou, porque queria preencher o tempo livre com muitas brincadeiras e aprendizado.

O projeto, que hoje está presente em 18 comunidades rurais de São Luís, São José do Ribamar e Paço do Lumiar, todas cidades do Maranhão, atende mais de 400 meninas e meninos entre 7 e 10 anos de idade. Sua ideia é fazer com que, através de brincadeiras e oficinas lúdicas, as crianças aprendam a identificar as diversas formas de violência e abusos de que podem ser vítimas, que conheçam seus direitos e saibam como protegê-los. 

É também um trabalho que objetiva dialogar com pais e mães, fazendo com que compreendam cada etapa do desenvolvimento de suas filhas e filhos e entendam como a violência, representada em um simples tapa, pode causar danos irreparáveis na formação de um indivíduo.

“Esse foi um programa muito importante para mim. A gente brincava, conversava sobre bullying, sobre abuso. O educador sempre falava que não devemos fazer nada que viole o nosso corpo, que é preciso se proteger, nunca entrar no carro de um estranho. Hoje, já sei até identificar quando alguém está me olhando estranho, sei me proteger”, conta a estudante.

Além da autoproteção, as discussões sobre os direitos humanos e a igualdade entre os gênero fizeram com que a garota se tornasse mais empoderada e conseguisse enfrentar o bullying. “Eu gostava de jogar futebol com minhas amigas, mas os meninos ficavam tirando sarro da gente, falando que futebol não é esporte de menina. Só que eu aprendi que a gente deve fazer o que gosta, que não existe isso de esporte de menina e de menino. Então, eu e minhas amigas continuamos jogando e não saímos mesmo sofrendo bullying. Vamos fazer eles entenderem que nós também podemos”, afirma. Quando a menina contou essa história dentro de casa, foi bem recebida pela família. Sua mãe também gosta de futebol, pratica esse esporte e defende que mulheres não devem abaixar a cabeça. Devem permanecer fortes e lutar por seus ideais.

Líder de uma comunidade rural esquecida

Ao completar 10 anos e concluir os módulos do projeto, Laysa teve que deixar o Cambalhotas. Foi um dia triste, mas ela já havia aprendido o suficiente para mudar sua vida e levar informações para seus amigos, familiares e para toda sua comunidade.

Sua história com a Plan, porém, ainda não havia acabado. Nos meses que se seguiram, ela seria convidada para participar da ação #MeninasOcupam, iniciativa da instituição que objetiva colocar meninas em cargos de liderança do governo. Por um dia, a menina foi a São Luís e ocupou a sala do governador, podendo observar como é a política em seu estado e como é importante que mais mulheres cheguem a esses postos de liderança. “Mais mulheres precisam conquistar seus lugares nesses espaços para nos representar e mostrar para todos que temos a força e a coragem pra conseguir o que queremos”, acredita a pequena cidadã de apenas 12 anos. O projeto coroou sua participação nas atividades da Plan, tornando-a uma figura crítica em relação à representatividade feminina e atenta à necessidade do surgimento de lideranças mulheres.

O vínculo de Layza com a organização durante todo esse período só foi possível graças aos investimentos dos seus padrinhos, que colaboraram mensalmente e investiram em atividades de educação e cultura para a menina e sua comunidade. Trata-se de um casal português que vive na Austrália com os dois filhos. Além do investimento financeiro, que torna possível projetos como esses, os padrinhos também lhe enviaram cartas e brinquedos. “São pessoas muito legais, muito amigáveis. Eles cuidam de mim mesmo estando longe. Perguntam se eu estou estudando, participam de minha vida. É muito gostoso receber esse carinho e atenção deles, esse incentivo para seguir em frente. Eu quero conhecer meus padrinhos um dia”, revela.

Sobre o futuro? Sonhos não faltam na vida de Layza. Depois que ela conheceu a Plan International Brasil, seus horizontes se abriram. Entre os que fazem seu coração pulsar mais forte está o de fazer faculdade, começar a trabalhar e poder ajudar as outras pessoas. “A Plan mudou minha vida. Antes, eu era uma menina que não respeitava ninguém, que não ouvia nada na escola. Hoje, eu melhorei as minhas notas, dou orgulho para meus professores quando apresento um trabalho e tenho um monte de planos. Me considero uma menina muito forte e a Plan foi a responsável por me fazer ver a força que eu tinha dentro de mim. Agora, é seguir em frente para conquista o que desejo”, finaliza.